Planalto Falante (segundo disco da Traça do Mestre Graça)

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Capa do novo disco da Traça do Mestre Graça

Planalto Falante é o nome do segundo álbum da Traça do Mestre Graça. Enquanto seu predecessor, Na Terra do Visconde, foca nas histórias de Guarapuava, este expande os horizontes para o estado do Paraná (uma das músicas se chama “Canção de Matinhos”, terra de coração do músico). Alexandre Leocádio, seu idealizador, dá um salto não apenas geográfico, mas conceitual e de qualidade. O primeiro disco saiu com 10 faixas, enquanto o novo vem com 23. Manteve algumas das cantoras do trabalho anterior, e incluiu novas vozes, femininas e masculinas. E diversifica o som, sem perder a identidade. Enfim, vamos aos fatos!

Começando pelo começo: a belíssima capa. É uma obra do artista plástico Valdoni Ribeiro, que mostra um pai contando histórias para sua filha. Fecha com perfeição a ideia do trabalho, além de ser esteticamente lindíssima, contrastando com a simplicidade da capa do primeiro disco.

Planalto Falante tem 18 vozes cantando, além dos narradores. O próprio Leocádio se arrisca em algumas faixas. Se no primeiro disco ele fez tudo, menos cantar, agora pode-se dizer que não faltou nada. Todas as letras são dele também.

Neste link há uma boa matéria sobre o disco. Destaca a diversidade musical (do reggae ao metal), e temática (Cataratas, gralha-azul, araucária… símbolos paranaenses).

Vamos ao faixa-faixa:

1. Nosso mundo é literário
A intérprete é Carine Nunes, que já tinha cantado em duas faixas no primeiro disco. Neste, ela canta mais três, sendo esta primeira a abertura, colocada aqui de forma proposital, pois trata do mundo da imaginação através da literatura, e apresenta a concepção do trabalho. É o mundo mágico infantil em versos como “nosso mundo é literário / um reino inteiro de imaginação / mas olhe bem em sua volta / nosso mundo é literalmente real”. Devemos lembrar também que, além do disco, há o espetáculo derivado, e não me surpreenderá se o show começar por essa faixa. Essa canção foi composta em homenagem ao setor infantil da Biblioteca Pública do Paraná. É até difícil falar do disco sem ter visto o show, pois as músicas ganham força ao vivo. Mas vamos lá. 🙂

2. Fome de Leão
Interpretada por Júlia Matos, é uma música suingada, com sopros e uma levada feliz. Cita o chimarrão, e trabalha imagens de animais através da poesia, com forte apelo lúdico. A voz infantil no início da faixa é da própria Julia Matos, quando criança. Resgatada de uma fita K7, tem até aquele típico ruído de estática. Grande sacada!

3. Lilás
Tati Sila é a intérprete desta faixa, que brinca com a cor lilás, da flor de mesmo nome. A música é mais falada que cantada, e tem um tom muito suave.

4. A Terra gira
Esta faixa trata dos movimentos de rotação e translação da Terra (enquanto a Terra gira o Sol ilumina / de acordo com a inclinação). Ótima para trabalhar em sala de aula. A intérprete é a Camila Galarça e a música é mais agitada que as anteriores, com sopros animados e uma bateria firme.

5. A lenda das Cataratas
Esta é bem paranaense. Traz novamente a Carine Nunes, agora em um tom bem messiânico, que lembra a música Tristeza das Águas, do primeiro disco. Traz ainda narração de Márcia Cebulski. Conta a lenda de Naipi, e é uma das faixas mais bonitas do disco.

6. De galho em galho
A sexta faixa faz referência à araucária e ao pinhão, e também brinca com a sonoridade das palavras. É interpretada por Guilherme Rocha, em uma voz irreconhecível para quem o ouve na banda Ultra Violent.

7. Curiaçu
Outra narração de lenda, agora a do guerreiro Curiaçu, caçador cujo peito virou tronco de um pinheiro do Paraná. A intérprete, Cynthia Rosolen, canta maravilhosamente bem. Márcia Cebulski participa desta faixa, como narradora.

8. Curupira pira Curitiba
Interpretada por Roberto Scienza, da banda Disaster Boots, a faixa brinca com lendas e imagens curitibanas, com uma levada mais roqueira e psicodélica.

9. Canção de Matinhos
Uma das faixas mais poéticas do disco, com apelo crítico à poluição das praias, ficou a cargo de Daniele Krauz, presente em outras duas faixas do trabalho. A sonoridade é mais fechada, triste, seguindo o tema. Canção de Matinhos também é o nome do hino da cidade litorânea de Matinhos. Alexandre Leocádio Santana, o avô do nosso Leocádio, foi o primeiro salva-vidas da cidade. A composição é dos tempos em que o músico trabalhava com Educação Ambiental na cidade.

10. Eu e Josefina
Fazendo contraponto à faixa anterior, esta é bem alegre e dançante, fazendo uso de um ritmo nativista, o vanerão. Conta história da mula de um tropeiro, a Josefina. A cantora é Marilde Lima, em boa emulação do jeito gaúcho de cantar.

11. O Visconde do frio
Essa faixa traz uma das melodias mais bonitas do disco, com a voz super suave da Heloisa Stoeberl. O Visconde aqui cantado em verso é o Visconde que dá nome ao primeiro disco, finalmente revelado agora.

12. Deve ser algo viral
A narração no início dá uma zoada na diferença de tratamento dos médicos em relação aos pacientes particulares e conveniados. A música tem uma sonoridade épica, progressiva, e a letra é engraçada. Os intérpretes são Aniely Mussoi e Ricardo Almeida. A cômica narração ficou a cargo de Alexandre Leocádio e Marina Santana.

13. Menina bonita
Com um ritmo bem soul, vem com uma letra mais infantil, interpretada por uma criança, a Helena Stoeberl. Aposto que será uma das favoritas da criançada.

14. A valsinha da Têre
Tati Sila volta nessa faixa, que nos remete às músicas infantis clássicas, no instrumental cheio de “barulhinhos”, e na melodia vocal suave e gostosa de ouvir. A música homenageia a Têre, já falecida, mãe da cantora Tati Sila. A inspiração para a composição veio da música Angel, de Jimi Hendrix.

15. Vou viajar
Cynthia Rosolen canta a evolução nessa viagem através da História. É uma faixa com musicalidade quase minimalista, sintética, que transpira tranquilidade, embora vá crescendo durante a audição. Ótima melodia.

16. Montezuma se enganou
Uma das melhores letras do disco, tratando da violência das colonizações, em história cantada pela Daniele Krauz – com um trecho narrado pela Márcia Cebulski – (as garras espanholas foram implacáveis e responsáveis pelo fim de mais uma civilização).

17. Pense duas vezes
Essa faixa traz 5 intérpretes, é uma música bem infantil e alerta para o desperdício. O ínicio da faixa é engraçado, com uma das cantoras “ensaiando” – só isso? Daí eu acho que repete isso umas cinco vezes. A cantora é questão é a irmã da Tati Sila, a Thamy. Quem participa dessa faixa também é a pequena Emily Campos, de 7 anos, que estava no show do SESC no ano passado, e cativou a galera cantando com vontade as músicas, como fã.

18. Uma estória ambiental
Outra letra muito criativa, lúdica, riquíssima em imagens (acho que ficaria sensacional ao vivo). Conta a saga de um oxigênio e seus amigos hidrogênios. É interpretada por Daniele Krauz. A faixa tem uma levada meio “Legião Urbana for Kids”.

19. Macuco Beleza
A terceira participação de Carine Nunes tem uma introdução épica e uma letra bem infantil, brincando com imagens e sons. Para quem, como eu, não sabe o que é Macuco, eis a explicação do Prof. Leocádio: “Macuco – é uma ave da Floresta Atlântica bastante ameaçada. A música descreve os hábitos dela. “Jussara” é uma palmeira mais ameaçada ainda pelo corte predatório para extração de palmito. O Macuco se alimenta do açaí que essa árvore produz.” Mais uma canção de verve ecológica, bastante alegórica.

20. Papel de Meu Herói
Outra introdução incrivelmente criativa, e que traz a participação da Fabi Stoeberl, estrela do show e disco anteriores. A faixa é uma homenagem aos (bons) pais. Alexandre Leocádio e Marina Santana participam da música.

As três últimas faixas tem características bem específicas: são mais pesadas, bem ao gosto do autor pelo thrash metal, e homenageiam a sobrinha do músico. Ei-las!

21. Isão
“Isão” é um dos apelidos da Isadora, a sobrinha do Leocádio. Essa faixa brinca com os apelidos, e é entoada pelo Guilherme Rocha, nessa vez fazendo uso de seu gutural. A música começa lenta e quase meiga, e torna-se “slayeriana” em seu refrão. Thrash metal for babies! 😀

22. Download Fralda Larga
Nessa o próprio Alexandre interpreta, com uma voz sintetizada, em meio à pesada camada sonora. A letra é das mais divertidas do disco (minha fralda armazena / um thera de informação).

23. Não é Maria, Não!
Começando com um ataque de bateria, é a mais “pesada” das três, trazendo novamente o Leocádio no vocal, nessa vez mandando um gutural dos quintos dos infernos. A letra se refere ao segundo nome da sobrinha Isadora, que é Maria.

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Só para finalizar, além de todos os citados, o disco ainda contou com o trabalho de Desirée Melo no design gráfico, e com as fotógrafas Janaína Carvalho e Mariana Arboit.

Resumo da ópera: se o primeiro disco já foi uma grata surpresa, este certamente é uma evolução, trazendo mais diversidade musical e letras ainda melhores. É, sem dúvida, um belo trabalho, de um artista extremamente dedicado, e que tem uma óbvia capacidade de aglutinar e integrar talentos (“cultive as amizades”, já dizia um amigo meu). Dessa forma, não é difícil entender os motivos que levam o segundo CD a apresentar tanta qualidade. Parabéns e que venha a turnê! Torço para que o disco seja valorizado, especialmente pelos educadores e pelo poder público.

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